17.6.05

Um conto

Este conto foi escrito tendo como motivação um concurso realizado pela revista Playboy nos anos 80, não tenho certeza da data exata em que foi escrito, recordo que era assinante da revista e vendo a promoção fiquei entusiasmado, lembro que o prêmio tinha algo como a publicação do conto vencedor na revista e algo mais, como desde a minha adolescência tinha guardado em segredo a vontade de tornar-me um escritor achei propício o momento. Escrevi este texto durante uma madrugada de muita ansiedade, foi tudo muito rápido, como na maioria dos textos que escrevo, algo me impulsiona, as idéias fervilham na minha mente, e neste caos de impressões consigo extrair algo que, ao menos para mim, faz sentido. Nunca enviei à redação da revista, como sempre algo me impediu, talvez medo de ter aquilo que buscava, talvez medo de não ter o talento que imaginava, certamente foi o medo que me impediu. Hoje não tenho mais medo de me expor. Por isso estou aqui, ainda que ninguém venha a este lugar, há sempre a possibilidade de que alguém leia e goste. O que me motiva é a expectativa de ser lido, não escrevo para mim sobre o mundo, escrevo de mim para o mundo.

A Maratona


Enfim conseguira chegar, seu coração batia em disparada, suas pernas já não lhe obedeciam à vontade de aumentar o ritmo das passadas, seu corpo apresentava os sinais de cansaço e fadiga, a dor era a sua mais presente companhia, seus passos largos e ritmados prosseguiam e insistiam em levá-lo à frente, eram quase duas horas de corrida, e faltava pouco para a linha de chegada, sua mente lutava para manter-se distante de tudo aquilo, da dor, da ansiedade, da expectativa dos adversários, seus pensamentos o levavam a lugares distantes, momentos vividos no passado, alegrias experimentadas.

Houve um tempo em que ele não passava de um garoto franzino, assustado e frágil, seus olhos sempre curiosos a tudo observavam, como um animalzinho que saído da proteção de sua mãe procura entender o mundo que o cerca. De sua infância não trazia boas lembranças, seu pai morrera quando ainda era muito criança e sua mãe, ocupada com a tarefa de prover-lhe alimento e moradia, não encontrava tempo nem mesmo disposição para transmitir-lhe segurança, autoconfiança, amor próprio, enfim para formar-lhe um caráter de vencedor.

Mas contra todas as expectativas ele tornara-se um vencedor, sua luta começara logo nos primeiros dias de escola, teve que se adaptar ao novo ambiente, compreender as regras, formar o seu clã. Contra a força usava a simpatia, contra a rejeição a persistência, era como as águas de um pequeno riacho que no seu curso ao encontrar uma pedra, se não consegue vence-la contorna-a. Aprendera a conquistar as pessoas, a sorrir sempre, ser gentil e estar sempre disposto a ouvir. Dos fortes tornou-se aliado, dos fracos amigo, dos poderosos parceiro e dos perigosos manteve-se distante. Logo cedo encontrou no esporte uma boa saída para tirá-lo do mundo que o perseguia, não aceitava a possibilidade de tornar-se um mais um rosto na multidão, um ser autômato que repetiria sua rotina diária dentro de uma vida monótona, sem brilho ou esplendor. Não ele queira mais, sonhara em ser um vencedor no que viesse a fazer, buscaria o olimpo, seu lugar seria na galeria da fama reservada para os que romperam as barreiras impostas pela vida e conseguiram ir além dos seus limites.

Sua adolescência fora marcada pela busca desse caminho, primeiro o futebol, mas logo percebeu não ser este o seu melhor talento, investiu no remo, e durante os treinamentos físicos percebeu que podia correr mais e por mais tempo que a maioria dos atletas que conhecia, foi então quando decidiu ser um maratonista, apesar de sua pouca idade, 25 anos, já encontrara o caminho do sucesso, e depois de vencer muitas corridas que serviriam de acesso ao lugar mais alto da categoria, conseguira ser convocado para as olimpíadas. Agora era chegado o momento esperado por toda a sua vida, era o dia da glória, o chegar aos céus, o sentir-se pleno de felicidade por vencer ao seu maior desafio de vida, que era ultrapassar o seu limite.

Mas os pensamentos foram embora, suas pernas tornaram-se pesadas, era como ter sobre si o dobro do seu peso, cada passada era-lhe muito cara, o suor escorria-lhe pelo rosto e pingava em seus olhos, a respiração tornava-se mais curta, seus pulmões reclamavam-lhe mais oxigênio, sua mente já não lhe servia de alento e fuga para a dor, foi quando percebeu estar no último quilometro da corrida, olhou pra traz e observou que sua liderança agora estava sendo ameaçada, aquele seria o quilometro mais difícil de percorrer de toda a sua vida, forçou um pouco mais ao sentir que seu adversário havia se aproximado, apenas alguns metros os separavam, ouviu os gritos desordenados das pessoas que assistiam ao duelo final, agora eram apenas os últimos quinhentos metros, soltou as pernas, seus braços como que no intuito de fazer-lhe voar moviam-se freneticamente num ritmo alucinante, a boca seca, aberta em busca de mais uma porção de ar, os olhos arregalados, fitando a linha de chegada, os ouvidos atentos às passadas de seu oponente, que agora estava lado a lado, e num último e desesperado esforço em busca da linha de chegada esticou o corpo como um pato que numa corrida frenética para alçar vôo projeta-se para frente em busca do céu. Então o sinal abriu, as buzinas dos carros parados no semáforo o acordaram de seu sonho, olhou meio assustado para o retrovisor, pisou na embreagem, trocou a marcha e seguiu em frente para mais um dia monótono de trabalho.
Como é bom encontrar alguém

Quero um dia de luta por vez,
Uma tarefa que não seja impossível,
Um sorriso que não seja traiçoeiro,
Quero um irmão amigo e um amigo irmão,
Ser útil a você,
Estender-te a mão,
Alegrar-te na tristeza,
Estar contigo quando vier a solidão,
Quero acima de tudo ser eu mesmo,
Com minhas fraquezas,
Anseios, medos e defeitos.
E se encontrar alguém que me aceite,
Assim como sou,
Já me darei por feliz.
Recife 1999

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