3.11.05

Vou-me embora pra Brasília

Recife amanheceu com uma das mais belas manhãs que eu já vi. O céu de uma azul profundo, limpo sem nuvens, no mar o movimento das ondas impulsionadas pela força dos ventos, constroem uma cena lírica fazendo as espumas das ondas que quebram no meio do mar parecerem chumaços de algodão espalhados num tapete azul marinho.

Vou-me embora para Brasília, e sei que sofrerei, sentido falta do mar azul, desta terra que desde cedo amei. Vou buscar novos horizontes a preencher minhas manhãs, longe vento que sopra do oceano atlântico.

Vou pra longe de Olinda e suas sete colinas, suas ladeiras históricas, suas graciosas meninas. Vou pro planalto central, de clima seco e frio, da vegetação rasteira do cerrado, do lago Paranoá, dos edifícios de concreto. Vou deixar a poesia nas mesas dos bares daqui, da minha turma boêmia, dos amigos com quem convivi. Vou a busca de novos amigos, sem esquecer os que ficam aqui, conquistar novos amores, e esquecer os que perdi.

Vou a busca de fortuna, das riquezas que correm por lá. Vou deixar minha alma aqui, pois lá irei para trabalhar. Vou guardar meu sorriso sincero, vou esquecer esse jeito menino, vou tornar-me um homem sério, para voltar a ser menino.

Vou-me embora para Brasília, começar tudo de novo, andar por ruas desertas, olhar nos olhos do povo. Aprender esse novo caminho, viver essa outra emoção, estar de volta ao ninho de onde um dia voei de avião. Vou andar pelo plano piloto, esplanada dos ministérios, me encantar com a beleza dos prédios, descobrir de Brasília os seus mistérios.

Vou então preparar meu espírito, e daqui me despedir, vou beber em cada bar da cidade para lembrar com quem bebi. Vou levar as imagens sagradas, do mar, dos rios daqui, vou cantar pelas madrugadas as músicas que falam de ti.

Vou deixar o Recife e Olinda, meus dois amores, tuas ruas, teu casario, tua história, teu jeito de viver, teu povo tão simples, vou levar tudo isto comigo, guardado no meu coração. Vou, mas volto Recife. Então não é um adeus, só até logo.
VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA
(Manoel Bandeira)

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

4 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

1:59 PM  
Blogger nine said...

O interessante foi que bati o olho no título e me remeteu ao VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA!

Mas tu vai memu?

Saudades...:)

3:26 PM  
Blogger Frederico Pereira said...

Vou sim! O melhor é que vou estar mais perto de vocês.

10:43 PM  
Blogger Infinit said...

Boa sorte, Frederico!

Sucesso!

11:05 AM  

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