17.7.05

Casa Grande e Senzala.

Este texto é o resultado de minhas reflexões sobre o momento atual da política brasileira, não tenho a intenção de convencer ninguém, apenas me posicionar. Sinto um nó na garganta ao ver tanta gente falando com ranger de dentes e sangue nos olhos. Há um ódio generalizado pelo partido dos trabalhadores, como estou no PT desde 1990 e tenho vivido cada eleição com tudo de mim, me sinto triste em ver todo um projeto de uma vida jogado na lama antes mesmo que se comprove até onde estamos envolvidos nas acusações que nos são feitas. Se estivermos realmente envolvidos nos crimes de que somos acusados, aceitarei a punição com lealdade ao partido e submissão à lei. Mas dê-nos, ao menos, o argumento da dúvida, e o pressuposto da inocência.
O escritor e pensador pernambucano Gilberto Freire em sua obra Casa Grande e Senzala faz uma análise da sociedade brasileira desde a sua formação sob estes dois extremos, a Casa Grande onde residiam os senhores de engenho, representando a elite brasileira, e a senzala onde sobreviviam os escravos, representando as massas de nosso país. Falando da miscigenação, dos costumes e do poder.

A história da construção de nossa sociedade está diretamente ligada à separação do país em duas classes predominantes, de um lado a classe dominante, elite, que detentora do poder, econômico, político e cultural conduziu os destinos do Brasil a partir de seus paradigmas. Do outro lado a massa, o povo, desprovido de qualquer tipo de poder, desinformado, inculto e pobre, que sempre se curvou diante de sua condição de submisso e aceitou de bom grado aquilo que lhe cabia, dentro da lógica do poder dominante.

No percurso da história o povo, massa de cidadãos pobres e excluídos, sempre foi utilizado segundo os interesses das elites dominantes, e foi instrumento desta nos momentos em que lhe convinha. Primeiro como força de trabalho escravo, ou de remuneração vil, depois como elemento de legitimação do poder quando das eleições em seus feudos, currais eleitorais, e por fim atualmente como massa de manobra do quarto poder, a mídia que muitas vezes manipula a opinião pública, segundo os seus interesses, basta lembrar em que mãos estão às empresas de comunicação no Brasil.

O grande cisma que houve quando da eleição de um representante da senzala ao cargo máximo da nação, não passou incólume aos rancores da elite dominante e acostumada a ter em suas mãos as rédeas do poder. Este novo modelo de gestão, onde o foco está no social, foi de pronto rejeitado e visto como um risco aos interesses daqueles que não querem ver a ascensão social da classe trabalhadora, com ganho de poder econômico e desenvolvimento cultural. Admitir a possibilidade de inserção social, em um ou dois mandados de um presidente trabalhador, daqueles que viviam a margem das benesses de uma sociedade moderna, era admitir que esses 500 anos no poder foram de usurpação dos direitos sociais de todo um povo excluído dos mais básicos direitos disponíveis a qualquer cidadão.

A casa grande está em guerra. E suas armas estão à mostra para quem tiver o cuidado de observar o que está escrito nas entrelinhas das reportagens denúncia, dos editoriais, das manchetes de primeira página. É chegado o momento da mídia servir ao seu senhor, afinal quem são os donos da informação no Brasil? A esquerda certamente não. Os trabalhadores não possuem redes de televisão, jornais nem revistas semanais de grandes tiragens e circulação nacional. Os nossos meios de comunicação nem mesmo conseguem atender a classe trabalhadora, chegando em suas mãos para conscientizá-la das fraudes jornalísticas a que estamos expostos.

A imprensa tem papel importante na apresentação dos fatos com isenção, imparcialidade e seriedade, todavia não é o que temos visto. As denuncias são feitas a partir de testemunhos desprovidos de provas materiais ou de um apurado processo investigativo, como é de se esperar de uma grande empresa de comunicação. A mesma força com que está sendo exposto o governo do Presidente Luis Inácio Lula da Silva deveria ter sido usada para expor os supostos escândalos do governo anterior.

Mas isto não era de interesse da casa grande, pois sua participação no poder estava garantida. Quando o PT chegou ao poder e começou a substituir os membros do primeiro, segundo e terceiro escalão da administração pública por seus aliados e membros do partido, desempregou alguns dos muitos representantes das elites que sempre estiveram alternando-se nesses cargos e deles viviam. E sempre se sentiram mais bem preparados para ocupá-los, hoje nestes mesmos cargos estão muitos dos representantes da senzala, e alguns curingas que sempre conseguem permanecer no poder, seja qual for o governante.

Então era hora de acabar com a “farra” da senzala que estava ocupando o espaço antes privativo daqueles que nos últimos quinhentos anos dirigiram o país. Ora não existe um só governo no mundo que suporte um exame apurado de seus membros, afinal entre tantos membros dos diversos escalões do poder certamente encontraremos sempre alguém que não mereça a confiança dos que o colocaram naquela função. Estes devem ser energicamente extirpados da nossa sociedade. Não aceitamos corrupção, e sempre estivemos a combatê-la.

Todavia o combate deve ser dentro dos ditames da democracia sob os ritos legais. A denuncia deve ser seguida de uma investigação e depois de obtidas as provas do ato lesivo o responsável deverá ser afastado e responder por seus atos. É o princípio do processo legal, contraditório e amplo defesa onde ninguém será condenado antes de ser julgado. Não podemos viver de pressuposições sob pena sacrificarmos um inocente, lembremos do caso da “Escola Base” onde vidas foram destruídas apenas porque havia a suspeita de ter ocorrido um crime, quando as investigações provaram ser inocente o “criminoso” denunciado, amplamente, pelos meios de comunicação.

No caso do governo do PT a situação é mais grave, pois estamos colocando em cheque todo um projeto político, que está obtendo resultados, por uma possibilidade, ainda não comprovada, de haver sido cometido crime pela cúpula do partido, na pessoa de seu presidente e do ministro chefe da casa civil. A quem interessa tamanha agitação? Estamos às portas da eleição de 2006 e todos sabemos que o Presidente Lula é candidato forte a reeleição. A casa grande admitiu a eleição de um trabalhador porque tinha certeza de que seu governo seria o caos. Enganou-se e vendo a possibilidade de uma nova derrota em 2006 lança mão dos instrumentos que lhe são peculiares, desinformação, denuncias sem provas, agitação dos meios de comunicação, e tenta fazer florescer no povo o sentimento de frustração e revolta por ter supostamente sido “enganado”. Mas não tem tido sucesso, nem o “dia negro” marcado para o dia 17 de junho teve a repercussão esperada por seus organizadores que sonhavam com a invasão das ruas por novos caras-pintadas pedindo a renuncia do Presidente Lula, foi certamente muito grande a sua frustração.

A resposta do povo na última pesquisa de opinião causa espanto daqueles que não compreendem que este governo dos trabalhadores está realmente focado nas necessidades dos desvalidos, dos excluídos. Não desconhecemos que há muito que fazer, não avançamos nem metade do caminho, mas temos vencido os desafios que se apresentam a cada passo. A história já tem guardado o lugar para todos os atores desta trama em que se tornou a trajetória de um trabalhador na presidência da República do Brasil.
Recife 17 de julho de 2005.

1 Comments:

Blogger Infinit said...

é pra me visitar tido dia, toda hora, todo minuto ou então só enquanto você respirar também!
hehehhe
beijo amigo querido!

2:01 AM  

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