25.8.05

Introspecção

(Foto da Lua - Discovery - NASA)




Nestes dias de chuva e frio o melhor é ficar quieto.

Um dia de muita tensão, muitos interesses envolvidos, julgamento no Tribunal de Justiça, lá estou eu correndo atrás do Desembargador, falando com o assessor, pendido prioridade ao presidente da Câmara. Durante o julgamento uma cena interessante, um jovem advogado requereu sustentação oral.

O rapaz era um típico nordestino oriundo de uma cidadezinha do interior, suas vestes e o jeito brejeiro o denunciavam. Ao pedir a palavra o fez sem obedecer ao rito solene que é próprio da corte maior do estado. Houve um mal estar geral até que o assistente de plenário solicitou do causídico que se colocasse de pé, vestisse a beca sobre os ombros e tomasse lugar na tribuna.

Todos estávamos tomados de extremo desconforto por aquele inconveniente em tão solene lugar. Mas ao começar seu discurso o acanhado rapaz revelou-se admirável orador, sua voz ainda que inicialmente vacilante, assumiu um tom seguro e forte, suas palavras sempre apropriadas a todos impressionou, a cultura demonstrada em suas citações, todas sem auxílio de escritos, confirma a impressão de todos, ali estava um advogado.

No fim da sessão saí frustrado por não ter conseguido ver julgado o meu processo, ficou para a segunda semana de setembro, mas em setembro eu volto, ah se volto.

A volta para casa foi andando, moro muito próximo ao Tribunal de Justiça. Fim de tarde, uma chuva fina, um clima agradável era um convite à reflexão, liguei o aparelho de MP3 e segui lentamente pela rua. Praça da República, Palácio da Justiça, Teatro de Santa Isabel, Palácio das Princesas, um largo de delicada beleza, construções em estilo neoclássico, uma praça arborizada com um belo e extenso jardim, árvores centenárias, estátuas gregas e de personalidades da história pernambucana.

A ponte, o rio e ao longe o encontro do rio com o mar, e mais longe Olinda, como é linda a cidade das sete colinas, seu casario preservado, o sítio histórico composto de igrejas centenárias, ruas estreitas feitas com pedras vindas de Portugal e unidas com betume de óleo de baleia. Há tanta poesia em suas ladeiras, repletas de ateliês, restaurantes, centros culturais e algumas residências. Ainda irei morar neste lugar.

Enquanto eu no meu caminho de volta ao lar ouvia música, à cidade corria em meio à chuva e congestionamento. Passos lentos e firmes, corpo relaxado, alma leve e um olhar distante, assim seguia o homem de paletó, a pé, com as mãos no bolso. Quem me olhava certamente pensava, ali vai alguém despreocupado com a vida. Ledo engano, enquanto a música conduzia meus passos, a mente viajava entre encontros, desencontros, monografia, formatura, mestrado, dívidas, saúde, expectativas que me visitam diariamente.

Um perfume persiste em me acompanhar, resolvi parar numa perfumaria que ficava no caminho e pedi a vendedora, Paloma Picasso. Um vidro pequeno R$ 126,00, sorri e me contentei com a fita de papelão imersa no perfume. Que fragrância aquela! Como um cheiro pode nos transportar a um determinado momento que ficou gravado na alma.

Senti-me um privilegiado por ter tão boas lembranças a recordar. Não importa o que virá, o que houve foi muito bom, e tem sua importância restrita a mim, penso então nas palavras do poeta Vinícius de Moraes – Que não seja eterno, posto que é chama, mas infinito enquanto dure – é exatamente isto que penso.

Quero deixar uma marca tão profunda que nem o tempo ou a distância possa apagar, pois que seja infinito enquanto dure. Mas isto é difícil de explicar, as palavras tendem a seguir o espírito de quem as lêem. Um espírito aflito tenderá quase sempre a afligir-se mais ao ler os sinais que o cercam. Verá no detalhe complementar o âmago da questão, fará do aposto o núcleo da oração.

Em casa a chuva está me matando, fico muito melancólico quando chove e o tempo esfria, tenho carência de uma enzima que é liberada pela exposição ao sol, agora não lembro o nome. Fico lento, sonolento, preguiçoso, as idéias não fluem. E o pior é que meu quarto está minando água da parede. Tudo está muito úmido.

O dia está terminando bem, amanhã será um dia melhor, estou ansioso para iniciar o curso de pára-quedismo falei com Samuca, do Grupo Gravidade, e estou aguardando que o avião seja consertado para iniciar as aulas, serão dez horas de teoria e um salto solo, saltarei orientado por um rádio de comunicação, o instrutor saltará simultaneamente, mas terei que realizar todos os procedimentos de navegação e pouso sozinho, depois serão dezesete salto para obter o Brevê. O coração dispara só de imaginar, mas eu mereço esse prazer.

Tive notícias de Cristiane, ela está bem em Brasília, passou em outro concurso, desta vez foi de Agente Penitenciário Federal. Essa moça vai longe, sinto falta dela. Lembro de sua imagem sempre sorridente, a pele branca, cabelos longos e castanhos, e o corpo sedutor, mas o que eu, mas sinto falta dela é o seu jeito de menina e as TATOO das pegadinhas e do Perna Longa deitado comendo uma cenourinha. E sinto falta do seu amor, carinho, atenção... Não queria que acabasse, mas nosso amor passou como uma chuva de verão. Mas eu ainda a amo.

“Olá velhinho!”

Amor distante

Amo-te ainda que distante estejas
E dos meus olhos tua imagem fuja
E em sonho, quando assim me beijas
De desejo nossas bocas ficam mudas.

Amo-te quando em desespero encontro
O coração que amo, a pulsar por outro
E nesse triste instante de vil confronto
Fecho os olhos, e em silêncio sofro.

Amo-te, mesmo que no desencontro
De nossas almas gêmeas, esteja o fim
Desse amor que vive a buscar teu beijo

E se te amar assim for o meu destino
Guardarei esse amor que arde em mim
E seguirei em busca de um novo caminho

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